Direção autônoma e as falhas da educação

Recentemente a comunidade europeia, juntamente com a montadora de automóveis Volvo, finalizou seus estudos referente ao projeto SARTRE (SAfe Road TRains for the Enviroment), que teve início no ano de 2009. Para quem não conhece o projeto em questão, se trata de um sistema de “trens” rodoviários, isto é, um caminhão ou ônibus (tripulado) segue o percurso de uma rodovia e ele faz papel de guia para que outros automóveis (civis, também tripulados) possam segui-lo e assim completarem o caminho automaticamente.

É um sistema complicado de se explicar com palavras, mas imagine o cenário: no GPS estará avisando o local de um desses “trens”, ou caminhões, você motorista chegará atrás deste veículo e acionará o sistema dentro do seu carro. O que acontece a seguir é simples, computadores irão dirigir seu automóvel como se fosse um Cruise Control (piloto automático) 100% integral, ou seja, não será necessária nenhuma intervenção do motorista para transitar naquela via uma vez que ele esteja conectado ao “trem” líder.

Antes que se desespere, para “desacoplar” da fila é mais simples do que parece, basta sinalizar e trocar de faixa como faria normalmente. Desta forma, é como se você fizesse parte de uma locomotiva, mas ao invés de trilhos e vagões, estará utilizando a própria rodovia e seu tão querido carro. Isso permite que os índices de acidente diminuam e que o consumo de gasolina seja otimizado, algo que foi comprovado dentro destes três anos de pesquisa prática realizada em ambiente controlado.

Junto a este projeto, um anexo a ele também está sendo desenvolvido pela General Motors, que são os sistemas de comunicação que permitirão a interatividade entre carros na rua, ou seja, algo que pode ser essencial nesse sistema comunitário de tráfego em grandes rodovias ou avenidas, como proposto pelo SARTRE.

A minha opinião nisso tudo não vem ao caso, mas há uma questão intrigante nessa futura realidade: seria esse realmente o caminho certo a se seguir? Faço essa pergunta, pois nós, seres humanos, temos a péssima tendência de “culpar ao outro” por nossos erros. É comum isso, todo mundo já fez uma vez na vida, está no sangue de nossa covarde espécie homo sapiens.

O problema da formação de condutores é algo agravante no mundo todo, se engana quem pensa que tal discussão fica restrita ao Brasil. Nos EUA as pessoas estão cada vez mais distraídas ao volante, casos de acidentes que acontecem por conta do celular só crescem a cada dia. Na Europa eles enfrentam o mesmo problema, inúmeras campanhas são feitas uma após a outra desencorajando o uso do celular enquanto dirige, bebida então? Mais sério ainda.

A diferença é que, diferente dos EUA, Inglaterra ou Alemanha, o que vale aqui no Brasil é a lei da impunidade. O que existe é uma cadeia de problemas que não serão resolvidos de um dia para o outro, algo que me leva àquela pergunta que fiz logo acima: seria a direção autônoma a resposta para a decadência da nossa sociedade ao volante? Seria esse o caminho certo?

Vamos pensar um pouco na primeira peça do dominó, aquela que vem antes mesmo da pessoa decidir tirar a CNH e comprar um carro, transporte público. Pode vir o prefeito X, Y ou Z, do partido PWX, PZM ou PTW, nenhum pode negar que a falta de qualidade e a ineficiência do transporte público, além do custo, estão chegando a níveis catastróficos. Na França se paga uma mensalidade fixa para usar o sistema público quantas vezes for, o artifício do carro é algo secundário e só usa aquele que quer, ou aquele que precisa, o carro em países europeus desenvolvidos é visto como meio de transporte opcional.

Na Inglaterra é a mesma coisa, a quantidade de linhas de metrôs poderia dar voltas e voltas na capital de São Paulo. Nos EUA a realidade é extremamente diversificada entre os estados, mas Nova Iorque mostra a superioridade do transporte público versus o carro. E no Brasil? Bom, aqui já é outra história. Cada um sabe bem como é a realidade em sua cidade, todos entram em consenso de que não é um exemplo de eficiência ou inteligência.

Tendo este cenário em mente, a pessoa pensa: vou comprar um carro. Eu sei da existência dessa realidade, você leitor também sabe, consequentemente, o governo e as famosas CFC’s também sabem disso. O que interessa ao mercado é angariar alUnos e formar condutores o mais rápido possível, é uma demanda da indústria. Não importa a qualidade de informações ou as horas teóricas e práticas, a questão do negócio é escancarar a porta do sistema de novos condutores.

Hoje em dia existem empregos que exigem a CNH, também existe a cultura de ascensão social que é baseada no carro e naquele pedacinho de papel que permite a pessoa conduzir um automóvel. Todos os dias, no Brasil, centenas de pessoas colocam a Permissão para Dirigir no bolso e saem por ai sem sequer ter em mente as leis de trânsito, quanto menos uma noção de velocidade, distância e outros cálculos necessários que precisamos ter para dirigir de forma segura.

E qual a desculpa utilizada pelos Centros de Formação de Condutores (CFC), ou até mesmo do Governo? “A pessoa aprende com a prática”. Espere um momento, quer dizer que uma pessoa está hábil para conduzir uma máquina de uma tonelada por simplesmente “fazer o mínimo”? Será que esse mesmo Governo estaria satisfeito em contratar recém-formados em Direito para ocupar uma cadeira no Superior Tribunal de Justiça?

abemos que não é assim que funciona, pois, ali, eles precisam da pessoa mais bem gabaritada possível, tendo isto em mente, eu pergunto: por que não se é exigido tal nível de qualificação para uma pessoa dirigir um carro? Por que as horas práticas e teóricas são tão subestimadas a ponto de pecarem até na fiscalização por parte dos órgãos competentes?

Um alUno de uma universidade precisa cumprir com todas suas obrigações para botar a mão no diploma, ele precisa sair dali como um exemplo para sua formação, por que não acontece o mesmo com as CNH’s? O número de acidentes mensais não é o bastante para mostrar que a formação desses condutores está totalmente defasada e ineficiente?

Você leitor, reparou que voltamos na questão dos acidentes? As peças do dominó caem rapidamente na medida em que exploramos o problema até de forma rasa. É muito fácil culpar os motoristas pela quantidade de acidentes, é muito fácil instituir leis que facilitem a fiscalização e a acumulação de impostos com as multas.

Difícil é investir no setor e formar melhores motoristas, difícil é incentivar o jovem a pensar que direção, bebida e celular não se misturam. Que geração de motoristas e cidadãos está sendo formada? Quer dizer então que está tudo bem colocarmos incompetentes ao volante e deixar que eles sejam corrigidos ou amparados pela tecnologia?

Aprendi dentro de casa que devo aprender com meus erros e não cometê-los novamente, é assim que nossa espécie conseguiu sobreviver até hoje, nós temos a capacidade de raciocinar e solucionar problemas. A meu ver, analisando friamente a realidade atual, botar todos os créditos no desenvolvimento de veículos autônomos não é a resposta para um crescente problema mundial, precisamos é repensar nossas atitudes desde o começo da cadeia.

A ideia do carro autônomo é excelente, apoio veemente para que dê certo e possamos ter uma vida mais confortável, é uma opção que muitos gostariam de ter até em favor de uma melhor qualidade de vida. É inegável que, no futuro, a forma de nos conduzirmos interestadualmente, ou até mesmo dentro de nossas cidades, seja totalmente diferente do que conhecemos hoje, no entanto, não podemos deixar que problemas antigos estejam presentes no futuro.

É necessário, acima de tudo, começar do zero a educação de novos motoristas e a re-educação dos mais velhos. Talvez seja utópico pensar em tal coisa, talvez seja esse o motivo da comunidade europeia estar investindo no projeto SARTRE, mas, particularmente, ainda tenho esperanças em nossa espécie.

  • Fonte: Notícias Automotivas /
  • Autor: Julio Cézar Molchan de Oliveira /
  • Data: 02 outubro 2012
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